30.10.09

"Não, não podem casar, porque casar toda a gente vai sair caro, julgam que isto são as noivas de S. António ou quê?"

Hoje apeteceu-me comprar o Público. Não é meu hábito, só o leio em certos dias porque o distribuem gratuitamente na minha faculdade. Mas hoje ia a passar em frente a uma papelaria e lembrei-me que com o Público vinha o ípsilon, e eu gosto do ípsilon. E comprei. E nas últimas páginas dei de caras com um artigo de opinião.
O autor é um senhor chamado Jorge Bacelar Gouveia, professor catedrático de Direito e deputado à Assembleia da República pelo PSD e, confesso a minha ignorância, pessoa de quem eu nunca tinha ouvido falar. Mas eu, como até estou benevolente hoje, acredito que seja um senhor muito inteligente e culto, de uma sabedoria arrasadora para os meus padrões. Só que o senhor teve a triste ideia de escrever sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. E isso deixou-me logo com pele de galinha.
Então vamos lá analisar os pontos de discórdia.
1. Não se diz casamento gay: o casamento não é gay, porque não tem orientação sexual, é uma instituição legal, um contrato escrito; diz-se casamento entre pessoas do mesmo sexo.
2. O argumento usado é aquele mais comum e sem piadinha nenhuma, "(...) como se Portugal, no estado em que está, não tivesse outras prioridades(...)". Meu caro senhor Gouveia, Portugal tem muitas prioridades, e esta é uma delas; e caso ainda não tenha percebido Portugal não vai sair do estado em que está, porque está assim desde o século XII; por isso vamos tratar deste assunto enquanto é tempo, para evitar mais mortes (sim, porque há mortes, não julguem que isto é um tema de pouca importância).
3. O senhor vem todo indignado dizer que já que querem mudar a lei, então façam referendo, porque se fizeram para a questão da despenalização do aborto também têm de fazer para isto. Eu acho piada esta conversa vinda de um professor de direito, porque eu, que não pesco muito de direito, tenho aquela ideia, que devo ter apanhado a ler jornais, de que os deputados são representantes eleitos pela população, e que o referendo só deve ser usado em situações de extrema necessidade. Ora bem, se existe a possibilidade de a lei ser votada no Parlamento, e neste caso existe a possibilidade de ser aprovada, vamos fazer referendo para quê? Ah pois, vamos fazer referendo porque só depois de as pessoas terem posto lá a cruz é que repararam que o partido que escolheram tem ideias diferentes das suas. Tivessem pensado nisso mais cedo.
4. (E este eu adoro mesmo) "(...) as formações partidárias que promovem o casamento gay dão liberdade de voto aos deputados, impedindo assim que os cidadãos, através do seu prévio voto legislativo nas urnas, pudessem ter obtido um antecipado conhecimento da posição oficial final sobre o assunto por parte de cada partido no momento da votação do respectivo projecto de lei." Vamos ver se eu entendi. Os partidos que promovem o casamento entre pessoas do mesmo sexo serão, seguindo o raciocínio do senhor, PS, PCP e BE. Todos eles avisaram que caso a lei fosse proposta para aprovação na Assembleia iam votar a favor. E fizeram esse aviso antes das eleições. Mas o senhor diz que os deputados podem mudar de ideias. Então se podem mudar de ideias, votam contra. Que parecia que era o que o senhor queria, porque o texto só mostra que ele seja um homofóbico disfarçado. Mas o senhor está indignado com isso. Olha, estou confusa, o que é que o homem quer afinal?
Sobre este texto fantástico, que eu vou emoldurar e pendurar na parede do meu quarto, ao lado dos textos do senhor João César das Neves, fica um comentário, que eu acho muito bom, do Daniel Oliveira: É prioritário dizer que isto não é prioritário.

1 comentário:

cegonhagarajau disse...

Excelente análise!
De facto, existem pessoas que têm a mania de opinar sobre tudo e ainda para mais esquecem-se que deviam ser representantes do povo. Falam do que não conhecem e só dizem disparates!
Gostei do que li.
Abraço ilhéu